Após reforma, Terminal Rita Maria, em Florianópolis, continua mal iluminado e subutilizado

O espaço recebeu reforma, mas continua com problemas. Foto: Marco Santiago / ND

Quem viveu a Florianópolis dos anos 1980 e 1990, quando o advento dos shoppings ainda era novidade na região, certamente vestiu alguma peça de roupa vinda da Central da Moda, que ficava no segundo piso do Terminal Rodoviário Rita Maria. Aliás, o local era muito frequentado na cidade. Era ali que o Papai Noel chegava todos os anos, que escolas da região iam para assistir apresentações de danças, ou o festival da Primavera. Muito antes, no século 18, os marítimos que aportaram, na época da chamada Praia da Feira, possivelmente foram servidos pela própria Rita, conhecedora dos segredos dos chás, das rezas e benzeduras. Atualmente, o terminal que ainda é a porta de entrada da cidade para muita gente —que no nome homenageia a mulher negra descendente de escravos que viveu naquele local— está mais próximo de um castelo abandonado.

A reforma recente do único terminal rodoviário ainda administrado pelo Estado em Santa Catarina, inaugurada em julho deste ano pelo governador Raimundo Colombo (PSD) ao custo de R$ 12,9 milhões, não deu conta de devolver ao equipamento público a mesma identidade que ele tinha com a cidade em 7 de setembro de 1981, quando foi inaugurado com um show da Fafa de Belém e um bolo gigante oferecido à população.

“Quem se lembra de como era isso aqui, bate até uma tristeza. Era o shopping da cidade”, conta um dos poucos comerciantes que ainda restam no terminal apontando mais da metade das lâmpadas, ou bocais onde deveriam ter lâmpadas, sem iluminação. Na área de desembarque, por exemplo, das quatro lâmpadas apenas duas funcionam. O trajeto entre o embarque e desembarque depois das 22h pode ser um desafio enorme para uma pessoa de baixa visão.

“Quando passei por aqui, há uns 15 anos, era um lugar muito acolhedor. Lembro-me de ter almoçado em um restaurante lá em cima, tinha muito movimento. É uma pena ver assim tão abandonada. É um espaço muito bom para atividades culturais, seria um ótimo cartão de visita da cidade”, contou o professor de medicina oriental José Luiz Azevedo, 53, que na madrugada de sexta faria o trajeto de Florianópolis x Porto Alegre a partir do Rita Maria.

Em média circulam pelo local sete mil passageiros por dia e, na alta temporada, cerca 15 mil. O fluxo diário é de 450 ônibus de 25 empresas nacionais e internacionais que utilizam o terminal.

O amontoado de pessoas numa das colunas próxima do desembarque chama a atenção à primeira vista. Mas basta olhar atentamente para perceber que ali é o único lugar com tomadas elétricas para os usuários. Quem chega ou parte de viagem, precisa esperar um dos quatro espaços disponíveis desocupar e conseguir, por exemplo, recarregar um celular ou ligar um notebook.

No piso superior, onde funciona a administração, a fiação está exposta e o hidrante, que seria utilizado em caso de incêndio, está com a mangueira cortada e desinstalada. Os dois elevadores para deficientes instalados recentemente, que levam ao piso onde nada funciona para o público, iniciam processo de deterioração antes mesmo de serem usados. Apenas um banheiro funciona e o aviso de que há chuveiros não pode ser confirmado.

A falta de segurança no local é uma das principais queixas dos comerciantes. Apesar de ter um posto da PM anexo ao prédio, policiais nunca são vistos no saguão do terminal. A Polícia Civil funciona apenas em horário comercial. “Os passageiros que precisam fazer boletim de ocorrência por perda de documento ou com crianças sem registro tem que se deslocar até a Osmar Cunha. Muitas vezes perdem o ônibus por causa disso”, confessa o taxista que também reclama do preço do cafezinho, “R$ 5 o copo pequeno do café preto”, e dos motoristas da Uber e de veículos não cadastrados que buscam passageiros dentro do saguão sem nenhuma resistência da administração.

Outro problema relatado por usuários e comerciantes no local é o antigo problema da falta de carrinhos. Segundo um dos entrevistados que não quis se identificar, existe um complô entre diversos personagens, da fiscalização ao comércio, para fazer com que faltem carrinhos para o transporte de malas. Com isso, os passageiros ficam obrigados a pagar pelo serviço que é ofertado por uma pessoa que usa carrinho próprio para isso.

Embrião de cidade inteligente

Projetado em 1976 pelos arquitetos uruguaios Enrique Hugo Brena e Yamandu Carlevaro, o Terminal Rodoviário de Florianópolis foi um marco da arquitetura da cidade e, ao lado dos prédios da Eletrosul e Assembleia Legislativa, serviu como “âncora” para demais ocupações institucionais. Foi o primeiro grande edifício a ocupar o aterro da Baía Sul, uma espécie de embrião de cidade ideal para a época. O projeto original, com 16 banheiros, soluções de fluxos e divisão por setores, como embarque e desembarque, mostram a expectativa dos projetistas sobre o uso do prédio.

No entanto, o crescimento da cidade não se deu da forma imaginada. O próprio projeto de urbanização do aterro nunca saiu do papel. Os carros se multiplicam de forma vertiginosa. Os preços das passagens de avião para capitais como Porto Alegre, São Paulo e Curitiba, são muito mais baratos que há 20 anos. E os shoppings centers, hoje, atraem mais a atenção do público que o antigo terminal. Em novos projetos de mobilidade, como os que envolvem a adoção de monotrilhos, o Rita Maria passaria por requalificação de uso e seria integrado ao transporte urbano também.

Números do Terminal Rita Maria

– Área: 15.718 metros quadrados

– Fluxo médio de 450 ônibus por dia

– 25 empresas nacionais e internacionais de transporte de passageiros

Segunda etapa prevê órgãos públicos no prédio

A reforma que iniciou para conter as goteiras no telhado e entregue em julho deste ano, depois de trocar também o piso e a camada asfáltica da pista, não passou no primeiro teste. A demanda remonta o ano de 2013, quando o Ministério Público de Santa Catarina chegou a pedir a interdição da rodoviária em função da quantidade de goteiras.

Com a experiência de dois mandatos de vereador consecutivo e dois de prefeito em São Bonifácio, Laurino Peters assumiu em junho deste ano como gerente do terminal com a missão de administrar uma das portas de entrada da cidade.

“Eu sempre digo que as pequenas coisas precisam ser resolvidas primeiro”, afirmou. Segundo Peters, agora, após a reforma do telhado e do piso, a administração deve iniciar uma nova instalação elétrica provisória até a licitação da prometida iluminação de led. “É uma obra que não é fácil de ser feita, por isso vamos tomar como medida provisória novas instalações elétricas até que possamos fazer uma rede totalmente nova e desativar esta antiga”, disse.

Peters informou ainda que o mezanino, também conhecido como segundo piso do terminal, deve receber órgão públicos, uma iniciativa para aumentar o fluxo de pessoas no local.

Sobre os equipamentos de segurança danificados, como um hidrômetro flagrado pela reportagem, o gerente informou que serão trocados ainda este mês. Já as denúncias de falta de carrinhos ou de que funcionários estariam escondendo os equipamentos o gerente rebate e diz que há carrinhos suficientes para os passageiros: “Inclusive temos material em estoque e sempre que é preciso fazemos a reposição”.

Texto de Fábio Bispo.

Fonte: ND Online

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