Como ficou o transporte coletivo durante a catástrofe de 2008 em Blumenau, Gaspar e Ilhota

Uma chuva torrencial, após várias semanas de tempo chuvoso e nublado em todo o Vale do Itajaí. A situação foi mais crítica em Blumenau, Gaspar e Ilhota, somando mais de 80 óbitos nestas três cidades. O governador à época – Luiz Henrique da Silveira – chegou a afirmar que os morros do Vale do Itajaí ‘derretiam igual a sorvete’.

Dias que antecederam o desastre

Na manhã de 20 de novembro de 2008, enquanto ia para a escola a bordo do carro 5777 da Do Vale já pude constatar a queda de uma grande barreira na Avenida das Comunidades. Foi assustador ver o tamanho do estrago causado pelo barro, dava para perceber que ainda havia muita coisa para cair. A avenida estava em meia pista e – ainda nas primeiras horas do dia – ninguém sabia por onde começar a retirar todo aquele barro. Na volta da escola, informações se confirmaram e a Rodovia Jorge Lacerda, no trecho denominado Rua Anfilóquio Nunes Pires também estava em meia pista já que metade da estrada havia sido engolida pelo Rio Itajaí Açu, literalmente.

Carro que por muito tempo ficou fixo no Belchior

Em 21 de novembro – já com a enchente se confirmando – fomos informados de que não haveria aula pois surgiam os primeiros pontos de alagamento pela cidade. Devido ao estrago na Rua Anfilóquio Nunes Pires e na Avenida das Comunidades, o trânsito de Gaspar estava caótico. Aproveitei para registrar alguns ônibus mais raros que faziam parte da frota de reserva das empresas e estavam circulando naquele dia.

Final de semana trágico

O sábado já começou muito mal, com uma chuva moderada mas constante. O nível do rio subindo cada vez mais, bem como os transtornos causados pela chuva. Na tarde deste dia – 22 de novembro de 2008 – presenciei a chuva mais assustadora de toda a minha vida. A água caia no telhado de maneira tão forte como se a casa estivesse aos pés de uma cachoeira. As calhas estavam longe de dar conta de tanta água, e parecia que a casa nem as possuía. Naquele momento já se previa que o pior estava por vir.

Durante algumas horas choveu quase 500mm nestas três cidades, mais do que o triplo do que era esperado para o mês de novembro inteiro. Como as três semanas que antecederam esta data também tiveram altos índices de chuva, naquele final de semana a terra literalmente entrou em colapso.

O domingo também teve muita chuva, e o resultado em Santa Catarina foi muito estrago, muitos prejuízos e mais de 130 mortes. Na semana seguinte o tempo permanecia carregado, a atividade econômica completamente parada em toda a região e os únicos veículos que circulavam eram as carretas do exército trazendo desde soldados até pontes móveis e os helicópteros tirando os moradores remanescentes da região do Baú, em Ilhota.

Na sequência vamos abordar o transporte coletivo e dar alguns detalhes e curiosidades sobre seu funcionamento durante aquele período – sabendo que transporte coletivo é o tema deste site – mas deixando claro sua irrelevância perante tudo o que aconteceu naquele sombrio novembro de 2008 em Santa Catarina.

Como ficou o transporte coletivo

A Verde Vale suspendeu a circulação das linhas intermunicipais durante o sábado (22), retornando alguns ônibus para sua garagem de Gaspar. Apesar de estar às margens do Rio Itajaí-Açu, as dependências da empresa estão cerca de 15 metros acima do nível normal do rio. Alguns veículos ficaram espalhados por Gaspar e Ilhota, na casa de seus motoristas, em locais também não alagáveis. O veículo 1013 ficou isolado no Baú, em Ilhota e não sofreu danos, ficando apenas preso na localidade.

Veículo estacionado em frente ao Colégio Ivo d’Aquino

Terminal Urbano de Gaspar

Em Gaspar, a Viação Do Vale também interrompeu os serviços no sábado (22). Como a garagem da empresa e o Terminal Urbano ficam em locais baixos em relação ao nível do rio, a maioria dos ônibus foi retirada a tempo. O carro 5122 foi retirado em manutenção e colocado em frente ao Colégio Ivo d’Aquino, enquanto o carro 5666 acabou ficando sob as águas já que havia sofrido um acidente dias antes e passava por reforma.

No município de Blumenau, as operações do Consórcio Siga ainda ocorreram durante o sábado, 22 de novembro de 2008. Ao menos dois ônibus da extinta Glória acabaram ficarando sob as águas. O veículo 1143, com menos de seis meses de operação foi um deles. Há relatos que dizem que o ônibus voltou para a fabricante Caio para reparos após o incidente. Outro veículo inundado foi o 1309, nas proximidades do Terminal Fortaleza.

Glória 1143 e 1309 nas imediações do Terminal Fortaleza (Foto: Adriano Perini Rocha)

O sol voltou a aparecer

Após mais alguns dias, a situação começou a voltar ao normal. A água baixou, as cidades voltaram a funcionar e as ruas foram sendo liberadas. O cenário era assustador. Geólogos estimaram em pelo menos seis meses só para a terra se recuperar de tanta água. No Garcia (Blumenau) e Belchior (Gaspar), em meados de dezembro o cenário ainda era de guerra.

Uma década se passou e alguns reflexos ainda podem ser sentidos no cotidiano das pessoas, como no caso da Rua Willy Henkels – ligação entre os bairros Velha e Garcia. A via está interditada e não há previsão para que seja reaberta. Esta ligação de seis quilômetros poderia desafogar parte do trânsito no Centro de Blumenau.

Também há o lado psicológico de toda a população que viveu aquele momento. Sempre que há uma chuva mais forte ou um princípio de enchente acaba voltando à memória aquela lembrança trágica de 2008. Esse misto de medo e respeito – que pouca gente fala – sempre haverá em todos que presenciaram esta tragédia.

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